08 dezembro 2021

Mais forte

Muitas vezes comparei o meu emocional a uma porcelana. Bela, frágil e delicada, a porcelana pode ser partida em vários pedaços, dependendo do quão forte é o impacto que ela sofre.

Mas, a porcelana pode ser consertada! Basta juntar todos os pedaços, com muita calma e paciência, e uni-los novamente com uma cola bem forte.

Antigamente eu pensava que, por ser uma peça já quebrada, essa porcelana seria mais frágil ainda! Bastaria uma leve batida para que ela se quebrasse novamente.

E assim eu encarava a minha luta contra a depressão. Meu emocional era a porcelana, bela e frágil, quebrada após os eventos da morte do meu primeiro marido, remendada nos anos seguintes, mas sujeita a quebrar facilmente, o que explicaria os episódios depressivos pelos quais passei ao longo dos anos.

 


Não me lembro exatamente quando foi, mas um dia, disse para mim mesma que não podia mais me dar ao luxo de ter depressão! Então, utilizo os jogos online, os dramas asiáticos, os livros, o meu cachorrinho, tudo o que for possível, para combater o estresse, a ansiedade e assim fugir da depressão.

Percebi, recentemente, que meu emocional não é mais tão frágil assim! Carrego cicatrizes que contam minha história de vida, minha resiliência, falam das minhas lutas e mostram minhas conquistas! Tenho agora uma grossa camada de verniz que mantêm tudo junto, sendo o conjunto final mais resistente.

Sinto-me mais como uma porcelana restaurada com ouro, que exibe suas cicatrizes como troféus, sendo agora, muito mais valiosa do que no seu estado inicial.


Kintsugi (ou kintsukuroi)


Para compreender esta técnica japonesa de restauração de porcelanas, devemos viajar para o Japão no final do século XV, à época dos Xoguns.

Ashikaga Yoshimasa foi o xogum que deu início a esta tradição milenar. Depois que suas xícaras de chá favoritas se romperam, decidiu enviá-las à China, para serem reparadas.

Pouco tempo depois, as xícaras foram devolvidas com alguns grampos muito chamativos de metal que prejudicavam toda a beleza dos dois pedaços de cerâmica.

O xogum ficou muito incomodado com o resultado, e pediu a seus artesãos que dessem uma solução àquilo.
 

 
Eles fizeram isso, limitaram-se a selar os pedaços quebrados com uma pasta em ouro para criar, assim, um objeto diferente, mais bonito e mais poderoso.

O xogum, então, ficou encantado.
 

 
Quando os japoneses colam objetos quebrados, eles preenchem as rachaduras com ouro. Eles acreditam que quando algo sofre algum dano, tem uma história, e há conserto, vale a pena repará-lo. Quando alguns vasos se quebram, eles não perdem seu valor. De fato, ao consertá-lo, ele torna um objeto único e especial. E passa a valer mais do que antes!

Esta arte está relacionado com a filosofia japonesa de wabi-sabi, que valoriza encontrar a sublime beleza naquilo que é imperfeito.

O método de reparação também nasceu da sensação japonesa de mottainai, que lamenta quando algo, qualquer coisa, é desperdiçada.


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